O Agridoce Agrestino

a·gri·do·ce
Que causa simultaneamente prazer e amargura.
a·gres·ti·no
Natural ou habitante do agreste, região do Nordeste brasileiro, entre a mata e a caatinga, de solo pedregoso e vegetação escassa e de pequeno porte.

Durante um período de descanso de minha visita ao agreste pernambucano, caminhava pela Praia do Patacho-AL, com uma inquietação. Qual deveria ser o nome daquela história que eu estava contando?

Eu já havia decidido não perseguir o estereótipo apresentado ao mundo sobre o povo nordestino: de tristeza, seca e sofrimento. Mas, ao mesmo tempo, não poderia abrir mão de pontuar a luta, cotidiana, de um povo que resiste à um clima rigoroso e à uma vida de grande privações.

Observando o quase-infinito do oceano, foi o movimento das ondas na areia que sussurrou aos meus ouvidos o nome que eu tanto buscava. Ora seco, ora molhado. Ora movimentado, ora repousante. Ora doce, ora salgado.

Uma pequena história de elementos culturais daquela região especial não poderia ter outro nome, aqui transformado em substantivo: o agridoce agrestino.

Inverno Agrestino, O Agridoce Agrestino, Pau Ferro-PE, 2016

Inverno Agrestino, O Agridoce Agrestino, Pau Ferro-PE, 2016

Paisagem #1 , Pau Ferro-PE, 2016

Paisagem #1, Pau Ferro-PE, 2016

Paisagem #2 , Pau Ferro-PE, 2016

Paisagem #2, Pau Ferro-PE, 2016

O ambiente que me circundava trazia sinais, a todo o momento, que qualquer elemento de minha pré-concepção poderia me enganar. A começar pelo verde da paisagem, que dominava o solo arenoso e se apresentava completamente diferente do que o esperado: seca e ausência de vida.

“Esse verde todo só aparece quando a chuva chega. E às vezes nem isso tem.”.

Mas tinha. E a paisagem agrestina mostrava, a quem quisesse observar, a beleza de uma das regiões mais negligenciadas do território brasileiro.

Casa em Pau Ferro , Pau Ferro-PE, 2016

Casa em Pau Ferro, Pau Ferro-PE, 2016

Detalhe Casa , Pau Ferro-PE, 2016

Detalhe Casa, Pau Ferro-PE, 2016

Aos poucos, percebi que as casas antigas e a vida campestre ficavam no passado, à medida que a população deixava suas casas em suas terras, por medo da insegurança, e se organizavam em pequenas povoações, como a Vila do Pau Ferro-PE, ou em cidades maiores como Panelas-PE, ainda circundada por uma grande e ativa área rural.

As lembranças eram a todo momento compartilhadas pelas pessoas que me recebiam, abriam suas casas, suas vidas, suas histórias. E, sem pedir licença, o inconsciente nordestino-agrestino começava a invadir a qualquer um, com suas comidas, cantigas, brincadeiras… e festas.

À Sombra de Lampião , Pau Ferro-PE, 2016

À Sombra de Lampião, Pau Ferro-PE, 2016

Bacamarteiros , Pau Ferro-PE, 2016

Bacamarteiros, Pau Ferro-PE, 2016

Qual o rosto deste povo que chama uma terra - supostamente - tão rigorosa de lar? Qual a face destes homens e mulheres que teimam em sorrir quando o ambiente - teoricamente - não sorri de volta?

Se você tivesse que escolher uma imagem que falasse por toda esta gente, qual você escolheria?
Eu optei por retratá-los em seus momentos de orgulho. Durante suas celebrações de vida, de alegria, de cultura.

Talvez um meio termo fosse necessário. Mas, sabendo que são milhares as imagens que promovem a dureza da vida sertaneja e agrestina, eu preferi povoar este relato com o oposto. 

O Bacamarteiro , O Agridoce Agrestino, Pau Ferro-PE, 2016

O Bacamarteiro, O Agridoce Agrestino, Pau Ferro-PE, 2016

Durante a Festa de São José, um grupo muito curioso me chamou a atenção. Os Bacamarteiros, que transitam entre um elemento folclórico e religioso, fazem claramente referência ao cangaço de Lampião e são figuras certas em todas as comemorações e reuniões pernambucanas.

Cheios de humor e uma malandragem quase ingênua, celebram o sagrado e o profano e, com seus bacamartes em punho, demonstram a maestria do povo nordestino ao vencer as inúmeras barreiras do cotidiano.

Paisagem do Quilombo Sambaquim , Pau Ferro-PE, 2016

Paisagem do Quilombo Sambaquim, Pau Ferro-PE, 2016

Associação Quilombola , Pau Ferro-PE, 2016

Associação Quilombola, Pau Ferro-PE, 2016

Início da Capoeira , Pau Ferro-PE, 2016

Início da Capoeira, Pau Ferro-PE, 2016

Incrustados no alto do Planalto da Borborema, aproveitando-se da geografia acidentada da região, floresceram e resistem até hoje comunidades cuja existência retratam um período muito triste de nossa história: as comunidades quilombolas.

Pude visitar, durante uma oficina de cultura africana, o Quilombo dos Sambaqüins, pequena comunidade que iniciou seu primeiro contato com a população externa há menos de quinze anos.

Jogo de Capoeira , Pau Ferro-PE, 2016

Jogo de Capoeira, Pau Ferro-PE, 2016

Jogo de Capoeira , Pau Ferro-PE, 2016

Jogo de Capoeira, Pau Ferro-PE, 2016

Crianças Quilombolas , Pau Ferro-PE, 2016

Crianças Quilombolas, Pau Ferro-PE, 2016

Humilde comunidade, no alto de uma pequena serra, onde a timidez e a curiosidade - e impossibilidade de tempo - não permitiram que relações mais profundas se construíssem e que eu registrasse imagens que perpassassem o - também existente - estereótipo de comunidade exilada e “ausente de recursos".

Ficou gravada a voz do continente africano, na capoeira que remonta aos antepassados que um dia ali sofreram e ali se libertaram.

Uma lembrança me visita, de vez em quando, após este encontro...
Que em uma pequena serra, escondida aos olhos desavisados, resiste uma pequena comunidade, daqueles que um dia arriscaram suas vidas pelo direito de liberdade.
Cavalgada em Panelas-PE , Pau Ferro-PE, 2016

Cavalgada em Panelas-PE, Pau Ferro-PE, 2016

Cavalgada , Pau Ferro-PE, 2016

Cavalgada, Pau Ferro-PE, 2016

Cavalgados , Pau Ferro-PE, 2016

Cavalgados, Pau Ferro-PE, 2016

Poucos dias antes de me despedir do agreste, pude acompanhar as comemorações da Festa do Jerico, conhecida em toda a região, onde a pequena cidade de Panelas-PE se transforma para agradecer ao santo padroeiro e receber os viajantes de diversos Estados vizinhos.

Corridas de jegues, shows, festas, missas, vaquejadas, cavalgadas. Os quatro dias de festas se desdobravam em dezenas de atividades, organizadas carinhosamente pela população.

Uma explosão de cores e sabores desafiavam meus sentidos.

Aquela sensação de estranhamento deixava claro que meu ser sudestino não representava a totalidade da cultura brasileira, que ali se apresentava em uma linda demonstração.

Por fim, ficaram os registros. Imagens que hoje tenho a alegria de poder compartilhar, cuidar e guardar. Fui certamente transformado pela própria história que eu pretendia contar.

Conforme os dias passam, e o tempo torna distante minha vivência agrestina, criador e criatura tornam-se uma exclusiva certeza: tornei-me ali mais brasileiro.
Desfile de Jegues , Pau Ferro-PE, 2016

Desfile de Jegues, Pau Ferro-PE, 2016

Montaria em Touro , Pau Ferro-PE, 2016

Montaria em Touro, Pau Ferro-PE, 2016

Palhaço Agrestino , Pau Ferro-PE, 2016

Palhaço Agrestino, Pau Ferro-PE, 2016

Homenagem à Habitante Mais Idosa de Panelas-PE , Pau Ferro-PE, 2016

Homenagem à Habitante Mais Idosa de Panelas-PE, Pau Ferro-PE, 2016

Iluminação , Pau Ferro-PE, 2016

Iluminação, Pau Ferro-PE, 2016

Fim de Tarde , O Agridoce Agrestino, Pau Ferro-PE, 2016

Fim de Tarde, O Agridoce Agrestino, Pau Ferro-PE, 2016